em algum lugar do mundo, uma ilha namora os ventos...
A crítica que vocês vão ler abaixo foi escrita por Carlos von Schmidt exatamente um ano e duas horas antes de nós assistirmos o filme em São Paulo. Foi tirada daqui.
Há outras coincidências: Carlos viu "O Último Tando em Paris" em 1973, em Los Angeles. Assim como ele, eu também vi o filme em 1973, na sua versão integral. Só que eu vi em Paris. Sorry, Carlos... Leiam o texto dele. É ótimo!
Os Sonhadores
Na França, a tradução do título original do último filme de Bernardo Bertolucci, I Sognatori , The Dreamers , Os Sonhadores , lembra as infelizes traduções de títulos feitas por aqui.
Em Paris, I Sognatori , Os Sonhadores , foi lançado como Innocents , Inocentes . Da noite para o dia, o filme de Bertolucci passou a ser o assunto dominante. Associá-lo a O Último Tango em Paris , procurar analogias e semelhanças, compará-lo a Os Sonhadores , faz parte da conversa cotidiana. Há várias razões para tal.

Isabelle (Eva Green)
Vi O Último Tango em setembro de 73, em Los Angeles. Versão integral. Revi o filme em São Paulo, seis longos anos depois em 79. Censurado. As cenas de sexo, cobertas por bolinhas pretas. Ridículo.
A cena em que Paul, Marlon Brando, usa manteiga para sodomizar Jeanne, Maria Schneider, ficou célebre. Não me lembro de nenhuma outra de nenhum outro filme tão comentada e tão popular.

Isabelle (Eva Green)
Mas, o filme de Bertolucci não se resumia a uma cena de sexo anal. É muito mais do que isso!
Entre quatro paredes, em Paris, em um apartamento para alugar, Paul e Jeanne encontram-se. Amor e morte, Eros e Tantos, confrontam-se.
A música pungente do argentino Gato Barbieri realçava os conflitos emocionais dos personagens. Ambos vivendo momentos difíceis e extravasando sentimentos, nem sempre conscientizados, através do sexo.

Isabelle (Eva Green) como Vênus de Milo
Em Os Sonhadores , Bertolucci de novo confina seus personagens, dois rapazes e uma moça, recém saídos da adolescência, em um apartamento parisiense.
Se nas ruas Cohn Bendit liderava a revolução de maio de 68 e a primavera em Paris não significava apenas a vida que renascia, mas o não ao autoritarismo e arrogância dominantes, no apartamento dos irmãos Isabelle, Eva Green e Théo, Louis Garrel, o irmão incestuoso e provocador, uma outra revolução acontecia.
De novo um americano, Matthew, Michael Pitt, vai desencadear situações em que o erotismo e o sexo dominam. Um ménage à trois , um relacionamento a três em que todos se entregam sem restrições e exceções.

Passeata - Matthew (Michael Pitt), Isabelle (Eva Green), Théo (Louis Garrel)
Bertolucci é mestre em criar situações do gênero. Em Último Tango a Parigi , O Último Tango , 1972, Il tè nel deserto , O Céu que nos protege , 1990, Lo ballo da Sola , Em Beleza Roubada , 1995 e agora em Os Sonhadores , personagens norte-americanos, mulheres e homens direta ou indiretamente vivem situações em que o desejo, o sexo determina toda ação.
Entrevistas e críticas sobre Inocentes realçam a importância do cinema e da Cinemateca Francesa na vida dos três personagens.

Bernardo Bertolucci
Só quem viveu as seções de cinema da Cinemateca dos museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio nos anos 50 e 60 compreenderá na totalidade a declaração de Bertolucci de que a vida imita o cinema e não o contrário.
Agora, só resta esperar a chegada de Os Sonhadores no Brasil. E torcer para que o título não seja uma bomba e o filme chegue sem cortes.

Cartaz de The Dreamers

Cartaz de Innocents
Carlos von Schmidt
São Paulo 13 de dezembro de 2003 19h05