Making Of de uma ousadia
O making of do Dança e Movimento se transformou num
fato tão relevante e digno de notícia quanto os dez dias de
espetáculos e oficinas que acontecerão em Ilhabela entre os
dias 17 e 26 de outubro. Os bastidores de um evento não costumam virar
matéria, mas neste caso, não dá para passar em branco
- a criação é tão ou mais importante que a própria
criatura.
Tudo começou com os convites feitos aos grupos que participam tradicionalmente
do evento, e também aos grupos novos, que virão pela primeira
vez. Essa sondagem pesquisa datas, transporte, número de participantes,
cachê artístico, etc. O custo do evento é estabelecido
praticamente após esse levantamento. A lista inicial envolvia 125 pessoas,
entre bailarinos, atores, músicos e pessoal de apoio.
O segundo passo é a criação do nome, o tema do ano,
que é feito num brainstorming, um processo no qual falam-se nomes sem
censura até chegar no melhor. Este ano, a idéia do tempo estava
em evidência. O autor do nome, "O Tempo na Dança e Movimento
do Cosmo", foi o mesmo que realiza o primoroso trabalho de concepção
gráfica do Pés no Chão, Beto Piedade. Não há
quem não se impressione com o que ele cria. A materialização
do projeto, através do portfolio, é um momento mágico
- o primeiro desenho do evento. Daí a transformá-lo em realidade
há uma grande distância. Esta envolve expectativa, trabalho árduo,
agitação, telefone ocupado o dia inteiro, listas, listas, e
mais listas, divisão e multiplicação de tarefas, viagens
para São Paulo, internet, reuniões, busca de patrocínio,
frustrações, cartas, ofícios, boas notícias, falta
de notícias, ameaças de cancelamento por falta de recursos,
pedido de ajuda ao Prefeito Manoel Marcos e enfim, obtenção
de um suporte financeiro básico através de sua intervenção
junto a um empresário, mas, que na realidade, representou um quinto
das necessidades econômicas da empreitada.
Então, como o evento será realizado?
Ousadia? Teimosia? Talvez, mas existe um algo mais que empurrou este projeto
e transformou o que era falta em presença. Este algo mais é
um sentimento de solidariedade participativa que se transformou em ajuda concreta.
Os custos que não foram cobertos se transformaram em doações,
como a ajuda para hospedagem em hotéis e casas de amigos, ajuda das
mães de alunos do Pés no Chão com alimentos que serão
preparados nos almoços comunitários, ajuda do Chef Tonhão
para um jantar especial no dia 23 de outubro, ajuda dos restaurantes para
algumas refeições, ajuda para a confecção das
faixas de divulgação, ajuda, ajuda, ajuda. E como se não
bastasse todo esse espírito solidário, que agiu positivamente
acreditando que mesmo o implausível é possível, todos
os artistas abriram mão de seu cachê para participar do Dança
e Movimento, e aos 125 artistas se juntaram mais 25.
Para finalizar este retrospecto da criação do 7° Dança
e Movimento, quase às vésperas de sua abertura, incluo a pergunta
que muitos fazem, arriscando a resposta em nome de um grupo - por que os integrantes
do Pés no Chão fazem todo esse trabalho sem ganhar nada?
Existem várias formas de gratificação, a financeira
é uma delas. Não que não seja absolutamente legítimo
receber remuneração por um trabalho realizado, isto é
natural e justo, mas são outras as fontes de sustentação
que estão mantendo estas pessoas firmes e unidas até seu salário
poder ser efetuado. Com certeza, não é a expectativa deste salário
futuro e imprevisível. O que segura, gratifica e de fato integra a
equipe do Pés no Chão são os momentos mágicos
vividos naquele espaço, repleto de símbolos e histórias,
com toda a sua precariedade e encanto, são os sonhos realizados e também
os adiados, a beleza da arte dançada estampada num linóleo branco
repleto de riscos e cicatrizes, e mais do que tudo isso, a emoção
de compartilhar essa grande aventura ousada que é a arte com as pessoas
que vivem aqui. Por isso, convido a toda a comunidade a participar do 7°
Dança e Movimento. Informe-se sobre a programação.
Chorar de emoção, se encantar, ser tocado no fundo da alma
pela beleza faz com que, apesar do cansaço e da batalha contínua
se chegue ao fim do Dança e Movimento com a sensação
de que valeu!