Gente de Valor

 

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Deuseane tem 26 anos, e Eder, 19. Ambos trabalham no Supermercado Ilha da Princesa. Para conversar com eles, subi as escadas que levam a uma área de descanso dos funcionários do mercado e, também, a uma cozinha, simples mas bem equipada, e limpíssima. Num banco, estavam sentados os dois, picando legumes. Eder descascava cenouras, e Deuseane cortava batatas. Depois de me apresentar, disse que gostaria de saber o que eles achavam de participar do "mutirão da sopa". Deuseane falou que essa tarefa era importante, porque muitas crianças não têm esses alimentos em casa, uma vez que suas famílias não têm dinheiro para comprá-los, e assim, ficam sem vitaminas, que são essenciais. Eder completou, dizendo que se sente feliz em poder ajudar os menos favorecidos, e que conta os dias até chegar a terça-feira, dia de preparar o sopão. Na fala de ambos, havia um sentimento que mesclava responsabilidade e emoção.

Esta iniciativa, que envolve de um lado o Supermercado Ilha da Princesa e seus funcionários, e de outro, o Grupo Vic, as Igrejas e o pessoal do Centro de Triagem, que fazem a distribuição dos legumes às famílias carentes, é um exemplo de parceria em trabalho de responsabilidade social que deve ser valorizado e multiplicado. A idéia partiu de Lúcia, dona do Supermercado, e foi prontamente abraçada pelos funcionários que, voluntariamente, dispõem de parte de seu horário de trabalho para separar os legumes, descascá-los, picá-los e depois pré-cozê-los e congelá-los.

Na cozinha, Maria cuida com a maior disposição de sua tarefa: cozinhar no ponto certo, nem a mais, nem a menos. Mostra o freezer, onde ficam os saquinhos, e conta que os legumes usados variam de semana para semana, mas os mais utilizados são a batata, a cenoura, o xuxu, a couve-flor, a abóbora e a beterraba. Sempre são legumes de qualidade, e um detalhe muito importante é a mistura das cores; é essencial que fique colorido e bonito. Pergunto quantos saquinhos são preparados, e Maria diz que são 30 a 40 por semana. Depois de pré-cozidos, Deuseane e Eder ensacam os legumes, que vão para o freezer, onde ficam até o dia seguinte, quando são coletados pelo Grupo Vic, Igrejas e Centro de Triagem de Ilhabela, e distribuídos para famílias carentes.

Deuseane comenta que terça-feira é um "dia ganho", não importa o que aconteça, fazer essa tarefa lhe dá a sensação de que valeu o dia. A quantidade de legumes utilizados é a que os dois dão conta de preparar durante o dia, em média, um caixote de cada um dos legumes utilizados, numa seleta de três legumes. Maria diz que é só chegar em casa, temperar, e transformar numa sopa para as crianças comerem.

Olho em cima do balcão da cozinha e observo alguns bolos cheirosos, cobertos com calda de maracujá, com certeza preparados para os funcionários que sobem até ali para um cafezinho e descem em seguida. Maria me traz um café quentinho e gostoso. Elogia a idéia de Lúcia, que, ao invés de dar os legumes crus para pessoas que pediam de forma desorganizada na porta do mercado, resolveu criar essa parceria envolvendo outras pessoas, que passaram a ter a alegria e a responsabilidade de ajudar o próximo, além de levar o alimento direitinho aonde ele deve chegar, na casa daqueles que mais precisam.

Despeço-me da Maria, da Deuseane e do Eder, estão todos envolvidos na preparação dos legumes, e já está na hora de colocar as batatas no panelão.

Ilhabela é assim, de repente, a gente descobre coisas de valor que, como Deuseane falou, fazem você ganhar o dia. Parabéns ao pessoal do Ilha da Princesa, que seu exemplo seja seguido por muitos.

 

Inês Ferreira da Silva Bianchi
Julho de 2003

 


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